quarta-feira, 9 de março de 2011

Matias Aires

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As virtudes humanas muitas vezes se compõe de melancolia, e de um retiro agreste. As mais das vezes é humor o que julgamos razão; é temperamento o que chamamos desengano; e é enfermidade o que nos parece virtude. Tudo são efeitos da tristeza; esta nos obriga a seguir os partidos mais violentos, e mais duros; raras vezes nos faz refletir sobre o passado; quase sempre nos ocupa em considerar futuros; por isso nos infunde temor, e cobardia, na incerteza de acontecimentos felizes, ou infaustos; e verdadeiramente a alegria nos governa em forma, que seguimes como por força os movimentos dela; e do mesmo modo os da tristeza. Um ânimo alegre disfarça mal o riso; um coração triste encobre mal o seu desgosto: como há de chorar quem está contente? E como há de rir quem está triste? Se alguma vez se chora donte só se deve rir, ou se ri por aquilo por que se chorar, a alma então penetrada de dor, ou de prazer, desmente aquele exterior fingindo, e falso. Só a vaidade sabe transformar o gosto em dor, e esta em prazer, a alegria em tristeza, e esta em contentamente; por isso as feridas não se sentem, antes lisonjeiam, quando foram alcançadas no ardor de uma peleja, esclarecida pelas circunstâncias da vitória; as cicatrizes por mais que causem deformidade enorme, não entristecem, antes alegram, porque servem de prova, e instrumento visível, por onde a cada instante, e sem palavras, o valor se justifica; são como uma prova muda, que todos entendem, e que todos vêem com admiração, e com respeito; a tristeza, que devia resultar da fealdade, confunde-se, perde-se, e se muda em alegria, por meia das aclamações do aplauso; a dor do golpe também se converte em gosto, por meio do remédio, e simpatia do louvor; este atrai a si toda a nossa sensibilidade, e deixa a natureza como insensível, absorta e indolente: assim se vê que a vaidade nos livra de uma dor como por encanto; por isso nos é útil, pois serve de acalmar os nossos males; e se os agrava alguma vez, é como a mão do artista, que faz doer para curar: e com efeito a vaidade não persiste muito em fazer sensível a razão que nos molesta; na mesma injúria do desprezo sabe descobrir algum motivo que ou diminui a pena, ou totalmente a tira;

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Vemos a perfeição dos objetos, mas ignoramos a qualidade deles, por isso os amamos, porque o amor quase sempre foge, assim que conhece a natureza do que ama. Os antigos pintaram ao amor cego, talvez para mostrar, que o amor para ser constante, é preciso que seja incapaz de ver, e que a falta de luz lhe sirva de prisão. Muitas cousas estimamos somente porque as não conhecemos, e outras porque as não conhecemos, as não estimamos; tanto é certo que não há nada certo no mundo; nos mesmos princípios se fundam muitas cousas contrárias, e opostas entre si.

Reflexões sobre a Vaidade dos Homens