sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Lúcio Cardoso - Páginas do Diário

S/d
    Não podemos ser tão constantes quanto o tempo, que não nos esquece e nem nos abandona nunca. A imaginação, esse ácido verde, deteriora os mais sólidos sentimentos. E nquanto o tempo é impassível, não perdoa e nem se distrai. Cumpre pois que façamos como se ele não existisse, e atravessemos essas ausências, serenos como se apenas fechassemos os olhos a um sono reparador.  Só assim podemos impedir que se destruam os proósitos de solidariedade que condimentam os mais eternos, os mais constantes votos de amor. E que a solidão nos ajude.

20

     Outro domingo — agora a tristeza aqui é tão grande que o tempo pare tecido de sonolentos domingos (...) — as horas fogem, carregadas de inútil e penumbroso sentido.
     Itaipu  se esfuma aos poucos, penso já não ver mais nada, tateio apenas, com dedos que a aflição torna ásperos e ardentes.

Maio. 5.
AGORA MAIS DO QUE NUNCA. Não em outra ocasião, mas precisamente agora. Ah, sei muito bem o que poderiam pensar certas pessoas caso encontrassem esta frase solta assim nos meus diários. Mas não é a semelhança de situação, a identidade de sentimentos, o que nos seduz e nos aproxima desses companheiros mudos que são os autores?
*  *  *
     Somos fortes sozinhos, reunidos é que os outros são fortes. Eles se revelam para s eunirem, nós nos ocultamos como o melhor meio de defesa. Mas ai, o que existe é sempre a guerra.
     Não esquecer a chuva forte, contínua, em bátegas cerradas, que vi ontem à noite;... Depois, o aspecto cataclísmico da cidade, as ruas cheias, luzes apagadas, o trânsito impedido, o mar calado sob a inesperada violência do céu — e através de tudo isto, sopro misterioso, incessante, cheio de mais solene pureza, o vento, o vento que chegava de longe como de uma ressucitada época bíblica, trazendo não ser que inidentificável lembrança de pranto, odor de velas queimando e morte — alto, majestoso, esmagador sentimento de morte, que fazia as árvores inchadas se erguerem mais alto, com seus brancos olhos fascinados em espectativa na escuridão.
     E eu caminhava na rua, com um pequeno coração solitário e transido de amor.