terça-feira, 22 de março de 2011

Graciliano Ramos

 O Estado não me paga para eu olhar as pernas das garotas. E aquilo era  uma garota. Além de tudo sei que sou feio. Perfeitamente, tenho espelho em casa. Os olhos baços, a boca muito grande, o nariz grosso.
(...)
 Descontentara-a provavelmente o exame da véspera. Um sujeito feio: os olhos  baços, o nariz grosso, um sorriso besta e a atrapalhação, o encolhimento que é  mesmo uma desgraça. Apesar destas desvantagens, os negócios não iam mal. E foi exatamente por  me correr a vida quase bem que a mulherinha me inspirou interesse - novidade, pois sempre fui alheio aos casos de sentimento. Trabalhos, compreendem?  Trabalhos e pobreza. Às vezes o coração se apertava como corda de relógio bem  enrolada. Um rato roía-me as entranhas.