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terça-feira, 22 de março de 2011

Graciliano Ramos

 O Estado não me paga para eu olhar as pernas das garotas. E aquilo era  uma garota. Além de tudo sei que sou feio. Perfeitamente, tenho espelho em casa. Os olhos baços, a boca muito grande, o nariz grosso.
(...)
 Descontentara-a provavelmente o exame da véspera. Um sujeito feio: os olhos  baços, o nariz grosso, um sorriso besta e a atrapalhação, o encolhimento que é  mesmo uma desgraça. Apesar destas desvantagens, os negócios não iam mal. E foi exatamente por  me correr a vida quase bem que a mulherinha me inspirou interesse - novidade, pois sempre fui alheio aos casos de sentimento. Trabalhos, compreendem?  Trabalhos e pobreza. Às vezes o coração se apertava como corda de relógio bem  enrolada. Um rato roía-me as entranhas.

Graciliano Ramos

Tento lembrar-me de uma dor humana. As leituras auxiliar-me, atiçam-me o sentimento.
(...)Dores só as minhas, mas estas vieram depois.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Graciliano Ramos

Se eu pudesse fazer o mesmo com ela, afogá-la devagar, trazendo-a  para a superfície quando ela estivesse perdendo o fôlego, prolongar o suplício um  dia  inteiro...
Graciliano Ramos - Angústia
Afinal tudo desaparece. E, inteiramente vazio, fico tempo sem fim ocupado em riscar as palavras e os desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, até que deixo no papel alguns borrões compridos, umas tarjas muito pretas.(...)
Que estará fazendo Marina? Procuro afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embriaguez, suicídio. . . Penso no meu cadáver, magríssimo, com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem casca, os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo. Os conhecidos dirão que eu era um bom tipo e conduzirão para o cemitério, num caixão barato, a minha Carcaça meio bichada.
Enquanto pegarem e soltarem as alças, revezando-se no mister piedoso e cacete de carregar defunto pobre ...
Graciliano Ramos - Angústia
Julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios.
Há criaturas que não suporto. Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos.
Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram.

-  Passo diante de  uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. E uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atento, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da Lama.
  Graciliano Ramos - Angústia