Canto IX
LXXV
(...)
A quem Amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha já por firme pressuposto
Ser com amores mal afortunado,
Porém não perdesse a esperança
De inda poder seu fado ter mudança,
LXXVI
(...)
Já cansado correndo lhe dizia:
— Ó formosura indina de aspereza,
— Ó formosura indina de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma!
LXXVII
Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo;
Tu só de mi só foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito já aquela ventura
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Oh, não creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes a cada hora se mentia!
LXXVIII
Não canses, que me cansas; e se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal que, inda que esperes,
Minha ventura é tal que, inda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo de buscar de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso.
Tra la spica e la man, qual muro è messo
(...)
LXXX
Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-me, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? OU, depois de presa,
Lhe mudastes a ventura e menos pesa?
LXXXI
Nesta esperança só te vou seguindo:
Nesta esperança só te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou, na virtude de teu gesto lindo,
Lhe mudarás a triste e dura estrela.
E se se lhe mudar, não vás fugindo,
Que o Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E se me esperas não há mais que espere.
LXXXII
Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegrias,
cair se deixa aos pés do vencedor
Que todo se desfaz em puro amor.