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domingo, 1 de julho de 2012

José de Alencar.


(...) Ele se candidatara ao Senado, talvez desejando repetir a carreira do pai, então já falecido, e foi comunicar o fato a Pedro II; este observa:
— "No seu caso, eu não me apresentava agora; o senhor é muito moço.
— Por esta razão, Vossa Majestade, devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

José de Alencar - A Viuvinha

Vieram então as lágrimas, as tristes e longas meditações, em que o espírito evoca uma e mil vezes a lembrança da desgraça, como uma tenta que mede a profundeza da chaga; em que se acha um prazer acerbo no magoar das feridas que se abrem de novo.

José de Alencar - A Viuvinha

(...)Ela recusou tudo, e contentou-se com um simples vestido preto e algumas rendas da mesma cor, como se estivesse de luto, ou se preparasse para as festas da Semana Santa.

— Assim, depois de cinco anos, disse-lhe sua mãe em voz baixa, persistes em conservar este luto constante.
A Viuvinha sorriu.
— Não é luto, minha mãe: é gosto. Tenho paixão por esta cor; parece-me que ela veste melhor que as outras.
— Não digas isto, Carolina: pois o azul desta seda não te assenta perfeitamente?
— Já gostei do azul; hoje o aborreço! É uma cor sem significação, uma cor morta.
— E o preto?
— Oh! O preto é alegre!
— Alegre! exclamou um caixeiro, admirado dessa opinião original em matéria de cor.
— Eu pelo menos o acho, replicou a moça tomando de repente um ar sério: é a cor que me sorri.

quarta-feira, 9 de março de 2011

José de Alencar - Vós, minhas leitoras.

(...)Hoje as rosas murcharam, o céu turvou-se; e nesta sáfara da vida por que passamos atualmente, apenas florescem os cardos com seus espinhos, as saudades com a sua melancolia, e os goivos com o seu triste emblema.(...)    Assim nesta quadra de amarguras e sofrimentos, encontram-se de espaço alguns corações ricos de virtudes e de sentimento; são oásis  deste tempo. (...)    Vós, minhas leitoras, que sabeis sentir, bem compreendeis o que são estas violetas de que falo; são flores singelas de vossa alma — a cariadade, a beneficência, o zelo, a abnegação.
     Também me compreendem os pobres infelizes, que tantas vezes durante estes tempos de provação tem sentido os perfumes suaves, a fragrância consoladora dessas flores do coração, — flores que desabrocham orvalhadas com as lágrimas da desgraça e do sofrimento.
     E sobre tudo isto, há ainda a religião, — a nossa bela religião de Cristo,— mãe extremosa de todos os orfãos, — a irmã desvelada de todos os infelizes, — a amiga e companheira fiel dos pobres, — a consoladora de todas as misérias, e todas as aflições.
(...) Aconselho-vos, que apesar dos tempos em que estamos, apesar da tristeza e melancolia que envolve esta bela cidade, apesar de tudo, apesar mesmo das lágrimas, não deixeis de sorrir.
      Notais porém que eu digo simplesmente sorrir e não rir.
      O riso, é esta expressão vulgar com que exprimimos a alegria, e o bom-humor; é muitas vezes mesmo um movimento nervoso, sem sentido, sem significação, um hábito que se contrai como tantos outros, como o costume de estalar os dedos, de alisar o bigode, ou endireitar o colatinho.
      Assim, rir, quando alguém sofre, quando nossos irmãos padecem, é uma ofensa amarga, um insulto à dor e à desgraça; por que esse riso, se não é um escárnio é uma indiferença fria, é um insensibilidade estúpida.
      Mas o sorriso é diferente.
      O sorriso é esta exaltação da alma, que nos momentos de calma e tranquilidade vem desabrochar nos lábios e abrir-se  como uma dessas flores silvestres que o menor sopro desfolha.
      Nunca vistes nas noites cálidas e límpidas, essas estrelas brilhantes que atravessam o horizonte, traçando no espaço um rasto luminoso, e brilhando um momento entre a escuridão das trevas?
      (...) Assim no meio dos desgostos e das tribulações, quando virdes um sorriso despontar nos lábios de uma linda mulher que vos ame, podeis fazer como o marinheiro; ajoelhai, e murmurai a sua prece. Ave maris stella.
 Portanto, minhas belas leitoras, sorri, sorri sempre, como sorri o céu, o mar, e tudo que é belo; (...)