segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Lima Barreto

(...) pensa-se profundamente,  dolorosamente, angustiosamente sobre nós, sobre o que somos; pergunta-se  a si mesmo se cada um de nós está reservado aquele destino de sermos nós  mesmos, o nosso próprio pensamento, a nossa própria inteligência, que, por  um desarranjo funcional qualquer, se há de encarregar de levar-nos àquela  depressão de nossa própria pessoa, àquela depreciação da nossa natureza,  que as religiões querem semelhante a Deus, àquela quase morte em vida.
Parece tal espetáculo com os célebres cemitérios de vivos, que um  diplomata brasileiro, numa narração de viagem, diz ter havido em Cantão, na  China.
Nas imediações dessa cidade, um lugar apropriado de domínio público era  reservado aos indigentes que se sentiam morrer. Dava-se-lhes comida,  roupa e o caixão fúnebre em que se deviam enterrar. Esperavam  tranquilamente a Morte.
Assim me pareceu pela primeira vez que deparei com tal quadro, com uma  repugnância, que provoca a pensar mais profundamente sobre ele, e aquelas  sombrias vidas sugerem a noção em torno de nós, de nossa existência e a  nossa vida, só vemos uma grande abóbada de trevas, de negro absoluto.  Não é mais o dia azul-cobalto e o céu ofuscante, não é mais o negror da  noite picado de estrelas palpitantes; é a treva absoluta, é toda ausência de  luz, é o mistério impenetrável e um não poderás ir além que confessam a  nossa própria inteligência e o próprio pensamento.  A loucura se reveste de várias e infinitas formas; é possível que os  estudiosos tenham podido reduzi-las em uma classificação, mas ao leigo ela  se apresenta como as árvores, arbustos e lianas de uma floresta: é uma  porção de coisas diferentes. 
Cemitério dos vivos