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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Lima Barreto

A insânia cria complicações, dores e sofrimentos que não ficam só  naqueles que são atingidos, mas vão se refletir nos outros, talvez mais  profundamente, deste ou daquele modo.
Cemitério dos Vivos

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Lima Barreto

(...) pensa-se profundamente,  dolorosamente, angustiosamente sobre nós, sobre o que somos; pergunta-se  a si mesmo se cada um de nós está reservado aquele destino de sermos nós  mesmos, o nosso próprio pensamento, a nossa própria inteligência, que, por  um desarranjo funcional qualquer, se há de encarregar de levar-nos àquela  depressão de nossa própria pessoa, àquela depreciação da nossa natureza,  que as religiões querem semelhante a Deus, àquela quase morte em vida.
Parece tal espetáculo com os célebres cemitérios de vivos, que um  diplomata brasileiro, numa narração de viagem, diz ter havido em Cantão, na  China.
Nas imediações dessa cidade, um lugar apropriado de domínio público era  reservado aos indigentes que se sentiam morrer. Dava-se-lhes comida,  roupa e o caixão fúnebre em que se deviam enterrar. Esperavam  tranquilamente a Morte.
Assim me pareceu pela primeira vez que deparei com tal quadro, com uma  repugnância, que provoca a pensar mais profundamente sobre ele, e aquelas  sombrias vidas sugerem a noção em torno de nós, de nossa existência e a  nossa vida, só vemos uma grande abóbada de trevas, de negro absoluto.  Não é mais o dia azul-cobalto e o céu ofuscante, não é mais o negror da  noite picado de estrelas palpitantes; é a treva absoluta, é toda ausência de  luz, é o mistério impenetrável e um não poderás ir além que confessam a  nossa própria inteligência e o próprio pensamento.  A loucura se reveste de várias e infinitas formas; é possível que os  estudiosos tenham podido reduzi-las em uma classificação, mas ao leigo ela  se apresenta como as árvores, arbustos e lianas de uma floresta: é uma  porção de coisas diferentes. 
Cemitério dos vivos

Lima Barreto

Eu me  tinha esquecido de mim mesmo, tinha adquirido um grande desprezo pela  opinião pública, que vê de soslaio, que vê como criminoso um sujeito que  passa pelo hospício, eu não tinha mais ambições, nem esperanças de riqueza  ou posição: o meu pensamento era para a humanidade toda, para a miséria,  para o sofrimento, para os que sofrem, para os que todos amaldiçoam. Eu  sofria honestamente por um sofrimento que ninguém podia adivinhar; eu  tinha sido humilhado, e estava, a bem dizer, ainda sendo, eu andei sujo e  imundo, mas eu sentia que interiormente eu resplandecia de bondade, de  sonhos de atingir a verdade, do amor pelos outros, de arrependimento dos  meus erros e um desejo imenso de contribuir para que os outros fossem  mais felizes do que eu, e procurava e sondava os mistérios da nossa  natureza moral, uma vontade de descobrir nos nossos defeitos o seu núcleo  primitivo de amor e de bondade.

Cemitério dos vivos

Lima Barreto

(...) e o grosso espetáculo  doloroso da loucura mais arraigou no espírito essa concepção de um mundo  brumoso, quase mergulhado nas trevas, sendo unicamente perceptível o  sofrimento, a dor, a miséria, e a tristeza a envolver tudo, tristeza que nada  pode espancar ou reduzir. Entretanto, pareceu-me que ver a vida assim era  vê-la bela, pois acreditei que só a tristeza, só o sofrimento, só a dor faziam  com que nós nos comunicássemos com o Logos, com a Origem das Coisas e  de lá trouxéssemos alguma coisa transcendente e divina. Shelley, se bem me  recordo, já dizia: “Os nossos mais belos cantos são aqueles que falam de  pensamentos tristes”...

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 O meu sofrimento era mais profundo,  mais íntimo, mais meu. O que havia no fundo dele, eu não podia dizer, a sua  essência era meu segredo;


Cemitério dos vivos

Lima Barreto

Todas as minhas idéias anteriores a tal respeito estavam completamente  abaladas; e me veio a pensar, coisa que sempre fiz, no fundo da nossa  natureza, na clássica indagação da sua substância ativa, na alma, na parte  que ele tomava nos nossos atos e na sua origem.  Até bem pouco, quase nada me preocupava com tais questões; tinha-as  por insolúveis, e tomar tempo com o querer resolvê-las era trabalho perdido.  Entretanto, os transtornos e as dores da minha vida doméstica tinham-me  levado às vezes a pensar nelas. Procurei estabelecer, para meu uso  particular, uma teoria que, forçosamente, me saiu por demais simplista, a  fim de explicar a nossa existência e a do mundo, assim como as relações  entre os dois. Não tinha chegado ao mistério, ao espesso mistério  impenetrável, em nós e fora de nós.(...)
  Repugnava-me personalizar com este ou aquele nome o desconhecido, o  informe, o vago. Dar um apelido seria limitar o ilimitado, definir o indefinido,  distinguir o indistinto, fazer perecível o imperecível. Sendo tudo, em face do  nada, e nada, em face de tudo, esse ser não devia ter corpo, nem forma,  nem extensão, nem movimento, nem outra qualidade qualquer com que nós  conhecemos as coisas existentes. O nosso ideal, a nossa felicidade seria ser  como ele, e, para alcançá-lo, devíamos procurar a nossa desincorporação,  pela imobilidade e pela contemplação. O sábio é não agir. Quando li esta  conclusão nos meus manuais baratos de filosofia, assustei-me. Aceitava a  concepção, mas a conclusão me repugnava.
Se verdade era que, em  presença desse tumulto da vida, desse entrechocar de ambições, as mais vis  e imundas, desse batalhar sem termo e sem causa, o homem beneficiado pela sabedoria tinha o dever superior de afastar-se disso tudo e tudo isso  contemplar com piedade; era verdade também que a ação, julguei assim,  seria favorável à nossa reincorporação no indistinto, no imperecível, desde  que fosse orientada para o Bem. Como conhecer o Bem? O meu espírito não  encontrava, para sinal de seu conhecimento, senão na revelação íntima. Os  problemas últimos da nossa natureza moral, nas minhas cogitações, ficaram  aí, e dei-me por satisfeito; mas — chega-me esse pequeno criminoso e me  põe tudo de pernas para o ar! Por que, pensei eu, se cada consciência fala ao  indivíduo de uma maneira, sobre o bem e sobre o mal, como na desse  rapazola, que não podia ter sofrido outras influências duradouras que não as  dele mesmo; se os homens não se encontram a respeito numa opinião única,  como distingui-las — Deus do Céu?   O curto encontro com esse rapazola criminoso, ali, naquele pátio,  mergulhado entre malucos a delirar, a fazer esgares, uns; outros,  semimortos, aniquilados, anulados, encheram-me de um grande pavor pela  vida e de um sentimento profundo da nossa incapacidade para compreender  a vida e o universo.
Cemitério dos vivos

Lima Barreto

Veio-me, repentinamente, um horror à sociedade e a vida; uma vontade  de absoluto aniquilamento, mais do que aquele que a morte traz; um desejo  de perecimento total da minha memória na terra; um desespero por ter  sonhado e terem me acenado tanta grandeza, e ver agora, de uma hora para  outra, sem ter perdido de fato a minha situação, cair tão, tão baixo, que  quase me pus a chorar que nem uma criança.

(Cemitério dos vivos)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Lima Barreto - Cemitério dos vivos (excertos)

Atolava-me na  bebida, no desgosto e na apreensão... Pensava bem em morrer, mas me  faltavam forças para buscar a morte. Comprava livros e não os lia. Planejava  estudos e não os fazia. Delineava obras e não as realizava. Minha capacidade  inventiva e criadora, a minha instrução técnica e a minha pretensão eram  insuficientes para fabricar um Náutilus, e eu bebia cachaça.

Lima Barreto

 Um vago desejo de morte de aniquilamento. Via  minha vida esgotar-se, sem fulgor, e toda a minha canseira feita, às  guinadas. Eu quisera a resplandecência da glória e vivia ameaçado de acabar  numa turva, polar loucura. Polar, porque me parecia que nenhuma afeição  me aquecia, e turva, pois eu não via, não compreendia nada em torno de  mim.(...) Quase me arrependia de não ter querido ser como os outros. Seguir os caminhos do burro e ter feito da minha vida um paradoxo. Quis ler ainda, mas não me era possível. Pensava e triava todos os meus sonhos que se iam esvaindo. (...)

Lima Barreto

Aceito todos os fins, mas não permita Deus que o tenha um destes.  Enche-me de angústia, quando este quadro se desenha a meus olhos;  atribuo a mim mesmo a culpa do que me sucede, ao mesmo tempo culpo F.,  culpo Z., culpo X. e toda a humanidade, a sociedade em que vivo, mas não  quero. Contudo, eu queria viver isolado, fora dessa paixão pela literatura,  pelo estudo. Creio que ela me faz mal e lastimo não ter outra forma de  talento em que minha inteligência pudesse trabalhar, absorver toda a minha  atividade, sem comunhão com os meus semelhantes.

Lima Barreto

Tudo é triste. O céu muito baixo, cheio de fuligem, fumaça.(...) Esta nossa sociedade é absolutamente idiota. Nunca se viu tanta falta de gosto. Nunca se viu tanta atonia, tanta falta de iniciativa e autonomia intelectual! (...) O dia é de tédio e eu procuro meios e modos de fugir dele, de voltar-me  para mim mesmo e examinar-me. Não posso e sofro. Arrependo-me de tudo,  de não ter sido um outro, de não seguir os caminhos batidos e esperar que  eu tivesse sucesso, onde todos fracassaram. (...)Aborrece-me este hospício; eu sou bem tratado; mas me falta ar, luz,  liberdade. Não tenho meus livros à mão; entretanto, minha casa, o delírio de  minha mãe... Oh! Meu Deus! Tanto faz, lá ou aqui... Sairei desta catacumba,  mas irei para a sala mortuária que é minha casa. Meu filho ainda não delira;  mas a toda a hora espero que tenha o primeiro ataque...

Lima Barreto

Ainda tenho alguma verve para a tarefa do  dia a dia; mas tudo me leva para pensamentos mais profundos, mais doridos  e uma vontade de penetrar no mistério da minha alma e do Universo.  Eu me indago, de mim para mim, se, por acaso, não é amor que me  corrói. Mas vejo bem que não. Passei a idade de tê-lo, fugindo dele, para que  ele não me criasse sofrimento e não prejudicasse a minha ambição de glória. [...]


O pobre do bom Caranguejo, com quem eu jogo bisca calmamente, teve um ataque de nervos, rasgou as vestes e, quase a chorar, dizia:
— Eu não sou nada! Nada! Ponha tudo isto fora!
Deram-lhe uma injeção e ele dormiu, não podendo ir jantar.

Lima Barreto

(...)eu sinto que a vida não tem mais sabor para  mim. Não quero, entretanto, morrer; queria outra vida, queria esquecer a  que vivi, mesmo talvez com perda de certas boas qualidades que tenho, mas  queria que ela fosse plácida, serena, medíocre e pacífica, como a de todos.  Penso assim, às vezes, mas, em outras, queria matar em mim todo o  desejo, aniquilar aos poucos a minha vida e sumir-me no todo universal.  Esta passagem várias vezes no hospício e outros hospitais deu-me não sei  que dolorosa angústia de viver que eu me parece ser sem remédio a minha  dor.  Vejo a vida torva e sem saída.
  (Cemitério dos vivos - Lima Barreto)

Lima Barreto

Digo com franqueza, cem anos que viva eu, nunca poderá apagar-me da  minha memória essas humilhações que sofri. Não por elas mesmo, que  pouco valem; mas pela convicção que me trouxeram de que esta vida não  vale nada, todas as posições falham e todas as precauções para um grande  futuro são vãs.
  (Cemitério dos vivos - Lima Barreto)

Lima Barreto

No último, no fim do homem e do mundo, há mistério e eu creio nele. Todas as prosápias sabichonas, todas as sentenças formais dos materialistas, e mesmo dos que não são, sobre as certezas da ciência, me fazem sorrir e, creio que este meu sorriso não é falso, nem precipitado, ele me vem de longas meditações e de alanceantes dúvidas.
  (Cemitério dos vivos - Lima Barreto)

Lima Barreto

Não me preocupava com o meu corpo. Deixava crescer o cabelo, a barba, não me banhava a miúdo. Todo o dinheiro que apanhava bebia. Delirava de desespero e desesperança; eu não obteria nada.
  (Cemitério dos vivos - Lima Barreto)

Lima Barreto

[...]acode-me refletir por que razão os médicos não encontram no amor, desde o mais baixo, mais carnal, até a sua forma mais elevada, desdobrando-se num verdadeiro misticismo, numa divinização do objeto amado; por que —  pergunto eu —  não é fator de loucura também? Por que a riqueza, base da nossa atividade, coisa que, desde menino, nos dizem ser o objeto da vida, da nossa atividade na terra, não é também a causa da loucura?
Por que as posições, os títulos, coisas também que o ensino quase te por meritório obter, não é causa de loucura?
  (Cemitério dos vivos - Lima Barreto)

Lima Barreto

Não quero morrer, não; quero outra vida.

Lima Barreto

Eu queria um grande choque moral, pois físico já os tenho sofrido, semimorais, como toda a espécie de humilhações também.
                (Cemitério dos vivos)

Lima Barreto

(...)
       O engraçado é que aqueles que eu não conhecia prontamente, é que vinham a mim falar-me; e não veio um só, vieram muitos, e todos me trataram com afeto e respeito, conquanto me caceteassem, lendo o que eu escrevia ou lia, querendo o meu jornal, pedindo-me cigarros, não me deixando de todo sossegar e aproveitar esse descanso que o álcool e as apreensões da minha atribulada vida me dão.
(Cemitério dos vivos - Lima Barreto)