segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Lima Barreto

Eu me  tinha esquecido de mim mesmo, tinha adquirido um grande desprezo pela  opinião pública, que vê de soslaio, que vê como criminoso um sujeito que  passa pelo hospício, eu não tinha mais ambições, nem esperanças de riqueza  ou posição: o meu pensamento era para a humanidade toda, para a miséria,  para o sofrimento, para os que sofrem, para os que todos amaldiçoam. Eu  sofria honestamente por um sofrimento que ninguém podia adivinhar; eu  tinha sido humilhado, e estava, a bem dizer, ainda sendo, eu andei sujo e  imundo, mas eu sentia que interiormente eu resplandecia de bondade, de  sonhos de atingir a verdade, do amor pelos outros, de arrependimento dos  meus erros e um desejo imenso de contribuir para que os outros fossem  mais felizes do que eu, e procurava e sondava os mistérios da nossa  natureza moral, uma vontade de descobrir nos nossos defeitos o seu núcleo  primitivo de amor e de bondade.

Cemitério dos vivos