segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Lima Barreto

Todas as minhas idéias anteriores a tal respeito estavam completamente  abaladas; e me veio a pensar, coisa que sempre fiz, no fundo da nossa  natureza, na clássica indagação da sua substância ativa, na alma, na parte  que ele tomava nos nossos atos e na sua origem.  Até bem pouco, quase nada me preocupava com tais questões; tinha-as  por insolúveis, e tomar tempo com o querer resolvê-las era trabalho perdido.  Entretanto, os transtornos e as dores da minha vida doméstica tinham-me  levado às vezes a pensar nelas. Procurei estabelecer, para meu uso  particular, uma teoria que, forçosamente, me saiu por demais simplista, a  fim de explicar a nossa existência e a do mundo, assim como as relações  entre os dois. Não tinha chegado ao mistério, ao espesso mistério  impenetrável, em nós e fora de nós.(...)
  Repugnava-me personalizar com este ou aquele nome o desconhecido, o  informe, o vago. Dar um apelido seria limitar o ilimitado, definir o indefinido,  distinguir o indistinto, fazer perecível o imperecível. Sendo tudo, em face do  nada, e nada, em face de tudo, esse ser não devia ter corpo, nem forma,  nem extensão, nem movimento, nem outra qualidade qualquer com que nós  conhecemos as coisas existentes. O nosso ideal, a nossa felicidade seria ser  como ele, e, para alcançá-lo, devíamos procurar a nossa desincorporação,  pela imobilidade e pela contemplação. O sábio é não agir. Quando li esta  conclusão nos meus manuais baratos de filosofia, assustei-me. Aceitava a  concepção, mas a conclusão me repugnava.
Se verdade era que, em  presença desse tumulto da vida, desse entrechocar de ambições, as mais vis  e imundas, desse batalhar sem termo e sem causa, o homem beneficiado pela sabedoria tinha o dever superior de afastar-se disso tudo e tudo isso  contemplar com piedade; era verdade também que a ação, julguei assim,  seria favorável à nossa reincorporação no indistinto, no imperecível, desde  que fosse orientada para o Bem. Como conhecer o Bem? O meu espírito não  encontrava, para sinal de seu conhecimento, senão na revelação íntima. Os  problemas últimos da nossa natureza moral, nas minhas cogitações, ficaram  aí, e dei-me por satisfeito; mas — chega-me esse pequeno criminoso e me  põe tudo de pernas para o ar! Por que, pensei eu, se cada consciência fala ao  indivíduo de uma maneira, sobre o bem e sobre o mal, como na desse  rapazola, que não podia ter sofrido outras influências duradouras que não as  dele mesmo; se os homens não se encontram a respeito numa opinião única,  como distingui-las — Deus do Céu?   O curto encontro com esse rapazola criminoso, ali, naquele pátio,  mergulhado entre malucos a delirar, a fazer esgares, uns; outros,  semimortos, aniquilados, anulados, encheram-me de um grande pavor pela  vida e de um sentimento profundo da nossa incapacidade para compreender  a vida e o universo.
Cemitério dos vivos