A última inocência e a última timidez. Está dito. Não levar ao mundo meus desgostos e minhas traições.
Vamos! A marcha, a carga, o deserto, o tédio e a cólera.
A quem arrendar-me? Que bicho é preciso adorar? Que santa imagem atacar? Que corações vou quebrar? Que mentiras devo falar? Em que sangue andar?
(...)Não sabes aonde vais nem porque vais, entra em todo lugar, responde a tudo. Não te matarão mais do que se fosses cadáver. De manhã, eu tinha o olhar tão perdido e a postura tão morta, que aqueles que eu encontrei talvez não me vissem.
Nas cidades a lama me aparecia de repente vermelha e negra, como um espelho quando a lâmpada corre no quarto vizinho, como um tesouro na floresta! "Boa sorte", eu gritava, e via um mar de chamas e fumaça no céu, e, à esquerda, à direita, todas as riquezas queimando como um bilhão de trovoadas.
Mas a orgia e a camaradagem das mulheres me eram proibidas. Nem mesmo um companheiro. Eu me via diante de uma multidão exasperada, frente ao pelotão de fuzilamento, chorando da desgraça que eles não puderam entender, e perdoando!
— Igual a Joana d'Arc! — "Padres, professores, mestres, vos enganais entregando-me à justiça. Eu nunca fui deste povo; eu nunca fui cristão; sou da raça que cantava suplício; eu não entendo as leis; eu não tenho senso moral, sou um bruto: vos enganais..."
Sim, tenhos os olhos fechados à vossa luz. Sou um bicho, um negro. Mas posso ser salvo. Vocês são falsos negros, vocês, maníacos, ferozes, avarentos. Mercador, tu és negro; juiz, tu és negro; general, tu és negro: bebeste de um licor não taxado, da fábrica do Satanás.
(...)Me conheço ainda? — Chega de palavras. Enterro os mortos na minha barriga. Gritos, tambor, dança, dança, dança! Nem vejo a hora quando, os brancos desembarcando, eu cairei no vazio.
Fome, sede gritos, dança, dança, dança!
(...) Eu não fiz o mal. Os dias me serão leves, o remorso me será poupado. Não terei sofrido os tormentos da alma quase morta ao bem, onde sobre a luz severa como velas funerárias. O destino do filho da família, caixão prematuro coberto de límpidas lágrimas. Sem dúvida a devassidão é besta; o vício é besta; devemos jogar fora a podridão. Mas o relógio não terá chegado a tocar apenas a hora da pura dor! Será que serei carregado feito uma criança, para brincar no paraíso no esquecimento de toda a desgraça!
Rápido! existem outras vidas?
(...) O tédio não é mais o meu amor. Vamos apreciar sem vertigem o tamanho de minha inocência.
Não serei mais capaz de perdir o reconforto de uma surra. Não sou prisioneiro da minha razão. Os gostos frívolos me deixaram. Não é mais preciso devoção nem amor divino. Não lamento o século dos corações sensíveis.
Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não... não, não posso. Sou muito dissipado, muito fraco. A vida floresce pelo trabalho, velha verdade: para mim a vida não é pesada o suficiente, ela voa e flutua longe, acima da ação, este querido ponto do mundo. Farsa contínua! A minha inocência me faria chorar. A vida é a farsa a ser levada por todos.
* * *
Chega! eis o castigo.
Ah! os pulmões queimam, as têmporas trovejam! a noite rola nos meus olhos, com este sol! o coração... os membros...
Aonde vamos? à luta? Eu sou fraco! os outros avançam. As ferramentas, as armas... o tempo!...
Fogo! fogo sobre mim! Lá! ou me entrego. — Covardes! — Eu me mato! Me jogo nos pés dos cavalo!
Ah!...
— Me acostumarei.
(Uma Estadia no Inferno - Sangue Mau)