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sexta-feira, 11 de março de 2011

Arthur Rimbaud

E no entanto os cadáveres dos maldosos e dos preguiçosos caem sobre o coração dos outros...
(Uma Estadia no Inferno)

Arthur Rimbaud

(...) vi que todos os seres têm uma fatalidade de felicidade: ação não é a vida, mas uma maneira de desperdiçar alguma força, uma enervação. A moral é a fraqueza do cérebro.(...)A minha saúde foi ameaçada. O terror vinha. Eu caía em sonos de vários dias e, levantando, continuava os sonhos os mais tristes. Estava maduro para a morte, e por uma estrada de perigos a minha fraqueza me levava aos confins de mundo e da Ciméria; ³pátria da sombra e dos turbilhões. A felicidade era minha fatalidade, meu remorso, meu verme: a minha vida seria sempre imensa demais para ser consagrada à força e à beleza.


 ³ A Ciméria era para os antigos a região coberta de neblina nos confins da Terra.

Arthur Rimbaud - Fome

Se tenho gosto não é senão
Só pelas pedras e pelo chão.
Almoço de ar então,
De rochedo, de ferro, de carvão.

Minhas fomes, girem. Pastem, fomes,
O campo dos farelos.
Atraiam o alegre veneno
Das campainhas-amarelas.

Comam cascalho quebrado que seja,
As velhas pedras da igreja;
Lascas dos antigos dilúvios,
Pães semeados nos vales cinzas.

O lobo gritava sob as folhas
Cuspindo as belas penas
do seu almoço de aves presumo:
Como ele me consumo.
(...)

Arthur Rimbaud

Eu amava o deserto, os pomares queimados, as lojas desbotadas, as bebidas mornas. Eu me arrastava nas vielas fedidas e, os olhos cerrados, me oferecia ao sol, deus do fogo.
"General, se sobrar um velho canhão nas tuas muralhas em ruínas, bombardeia-nos com blocos de terra seca. Nas vitrines das lojas maravilhosas! Nos salões! faz a cidade comer o seu pó. Enferruja as bicas. Enche os quartos femininos de pó...

(Uma Estadia no Inferno)

Arthur Rimbaud

Engoli um belo trago de veneno. As minhas entranhas ardem. A violência do veneno torce meus membros, me deixa disforme, me derruba. Estou morrendo de sede, sufoco, não posso gritar. É o inferno, eterna pena! Vejam como o fogo se levanta! Queimo como deve.
(...)
     Lá, não serão almas honestas, que me querem bem...Venham... Tenho um travesseiro na boca, elas não me ouvem, são fantasmas.
     Ah, isto! o relógio da vida parou há pouco. Não sou mais ao mundo. 
(...)  Vou desvendar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, vazio. Sou mestre em fantasmagorias.
     Escutem!
     Tenho todos os talentos! — Não há ninguém aqui e há alguém: eu não gostaria de derramar meu tesouro. — Querem cantos negros? Querem que eu desapareça, que mergulhe à procura do anel? Querem? Farei ouro, remédios. 
     Decididamente, estamos fora do mundo. Nenhum som. Meu tato desapareceu.
     Ah! meu castelo, minha porcelana, meu bosque de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias... Cansei!
Morro de cansaço. É o túmulo, vou  aos vermes, horror do horror! Satanás, brincalhão, você quer me dissolver, com teus charmes. Eu reclamo. Eu reclamo! uma espetada, uma gota de fogo.
Ah! voltar à vida! Jogar os olhos nas nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! A minha fraqueza, a crueldade do mundo! Meu Deus, piedade, esconda-me, não sei me comportar! — Estou escondido e não estou.


(Uma Estadia no Inferno - Noite no inferno.)

Arthur Rimbaud

     Não partimos. — Vamos retomar os caminhos daqui, carregado de meu vício, o vício que empurrou suas raízes de sofrimento ao meu lado, desde a infância — que sobe ao céu, me bate, me derruba, me arrasta.
     A última inocência e a última timidez. Está dito. Não levar ao mundo meus desgostos e minhas traições.
     Vamos! A marcha, a carga, o deserto, o tédio e a cólera.
     A quem arrendar-me? Que bicho é preciso adorar? Que santa imagem atacar? Que corações vou quebrar? Que mentiras devo falar? Em que sangue andar?
(...)Não sabes aonde vais nem porque vais, entra em todo lugar, responde a tudo. Não te matarão mais do que se fosses cadáver. De manhã, eu tinha o olhar tão perdido e a postura tão morta, que aqueles que eu encontrei talvez não me vissem.
     Nas cidades a lama me aparecia de repente vermelha e negra, como um espelho quando a lâmpada corre no quarto vizinho, como um tesouro na floresta! "Boa sorte", eu gritava, e via um mar de chamas e fumaça no céu, e, à esquerda, à direita, todas as riquezas queimando como um bilhão de trovoadas.
      Mas a orgia e a camaradagem das mulheres me eram proibidas. Nem mesmo um companheiro. Eu me via diante de uma multidão exasperada, frente ao pelotão de fuzilamento, chorando da desgraça que eles não puderam entender, e perdoando!
      — Igual a Joana d'Arc! — "Padres, professores, mestres, vos enganais entregando-me à justiça. Eu nunca fui deste povo; eu nunca fui cristão; sou da raça que cantava suplício; eu não entendo as leis; eu não tenho senso moral, sou um bruto: vos enganais..."
     Sim, tenhos os olhos fechados à vossa luz. Sou um bicho, um negro. Mas posso ser salvo. Vocês são falsos negros, vocês, maníacos, ferozes, avarentos. Mercador, tu és negro; juiz, tu és negro; general, tu és negro: bebeste de um licor não taxado, da fábrica do Satanás.
(...)Me conheço ainda? — Chega de palavras. Enterro os mortos na minha barriga. Gritos, tambor, dança, dança, dança! Nem vejo a hora quando, os brancos desembarcando, eu cairei no vazio.
     Fome, sede gritos, dança, dança, dança!
(...) Eu não fiz o mal. Os dias me serão leves, o remorso me será poupado. Não terei sofrido os tormentos da alma quase morta ao bem, onde sobre a luz severa como velas funerárias. O destino do filho da família, caixão prematuro coberto de límpidas lágrimas. Sem dúvida a devassidão é besta; o vício é besta;  devemos jogar fora a podridão. Mas o relógio não terá chegado a tocar apenas a hora da pura dor! Será que serei carregado feito uma criança, para brincar no paraíso no esquecimento de toda a desgraça!
Rápido! existem outras vidas?
(...) O tédio não é mais o meu amor. Vamos apreciar sem vertigem o tamanho de minha inocência.
Não serei mais capaz de perdir o reconforto de uma surra. Não sou prisioneiro da minha razão. Os gostos frívolos me deixaram. Não é mais preciso devoção nem amor divino. Não lamento o século dos corações sensíveis.
     Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não... não, não posso. Sou muito dissipado, muito fraco. A vida floresce pelo trabalho, velha verdade: para mim a vida não é pesada o suficiente, ela voa e flutua longe, acima da ação, este querido ponto do mundo. Farsa contínua! A minha inocência me faria chorar. A vida é a farsa a ser levada por todos.
*  *  *
     Chega! eis o castigo.
     Ah! os pulmões queimam, as têmporas trovejam! a noite rola nos meus olhos, com este sol! o coração... os membros...
     Aonde vamos? à luta? Eu sou fraco! os outros avançam. As ferramentas, as armas... o tempo!...
     Fogo! fogo sobre mim! Lá! ou me entrego. — Covardes! — Eu me mato! Me jogo nos pés dos cavalo!
     Ah!...
     — Me acostumarei.

 

(Uma Estadia no Inferno - Sangue Mau)

domingo, 24 de outubro de 2010

Arthur Rimbaud - I

Eles detestam a beleza quando ela é feia. Eles adoram a feiúra quando ela é bela. Nisto está todo o drama!