quarta-feira, 27 de abril de 2011

Albert Camus - A Queda

     Até amanhã então, meu caro senhor e compatriota. Não, agora encontrará facilmente o caminho.  Deixo-o  perto  desta  ponte.  À  noite,  nunca  passo  numa  ponte.  Por  causa  de  uma promessa. Suponha, enfim, que alguém se atire à água. Das duas, uma: ou o senhor o segue, para retirá-lo, e no tempo de frio arrisca-se ao pior, ou o abandona, e os mergulhos retidos deixam, às vezes, estranhas cãibras. Boa noite! Como? Estas mulheres, por de trás das vitrines? O sonho, meu caro senhor, o sonho a baixo custo, a viagem às índias! Estas pessoas perfumando-se com especiarias. Entra-se, elas fecham as cortinas e a navegação começa. Os deuses descem sobre os corpos  nus  e  as  ilhas  ficam  à  deriva,  dementes,  encimadas  por  uma  cabeleira  desgrenhada  de palmeiras ao vento. Experimente.