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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Albert Camus - A queda

Que me diz? Aqui temos, creio que concorde com isso, a mais bela das paisagens negativas! Veja, à nossa esquerda, aquele monte de cinza, a que chamam aqui de duna, o dique cinzento à direita, a margem arenosa lívida a nossos pés e, à nossa frente, o mar com a cor esmaecida de espuma, o vasto céu onde se refletem as águas pálidas. Um inverno amorfo, na verdade! Nada mais do que linhas horizontais, nenhum brilho, o espaço é incolor, a vida, morta. Não será a retração universal, o nada sensível a nossos olhos? Nenhum ser humano, sobretudo, nenhum ser humano. O senhor e eu apenas, diante do planeta enfim deserto!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Albert Camus - A Queda

     Até amanhã então, meu caro senhor e compatriota. Não, agora encontrará facilmente o caminho.  Deixo-o  perto  desta  ponte.  À  noite,  nunca  passo  numa  ponte.  Por  causa  de  uma promessa. Suponha, enfim, que alguém se atire à água. Das duas, uma: ou o senhor o segue, para retirá-lo, e no tempo de frio arrisca-se ao pior, ou o abandona, e os mergulhos retidos deixam, às vezes, estranhas cãibras. Boa noite! Como? Estas mulheres, por de trás das vitrines? O sonho, meu caro senhor, o sonho a baixo custo, a viagem às índias! Estas pessoas perfumando-se com especiarias. Entra-se, elas fecham as cortinas e a navegação começa. Os deuses descem sobre os corpos  nus  e  as  ilhas  ficam  à  deriva,  dementes,  encimadas  por  uma  cabeleira  desgrenhada  de palmeiras ao vento. Experimente.

Albert Camus - A Queda

    Quando  a  mim,  moro  no  bairro  judeu,  ou  no  que  era  assim chamado até o momento em que nossos irmãos hitlerianos abriram espaço. Que limpeza! Setenta e cinco mil judeus deportados ou assassinados — é a limpeza pelo vácuo. Admiro esta aplicação, esta paciência metódica! Quando não se tem caráter, é preciso mesmo valer-se de um método. 
Nesse caso, ele fez milagres, sem dúvida alguma, e eu moro no local em que foi cometido um dos maiores  crimes  da  história. Talvez  seja  isso  que  me  ajude  a  compreender  o  gorila  e  sua desconfiança. Desse modo, posso lutar contra essa tendência de temperamento que me inclina de modo irresistível à simpatia. Quando vejo uma cara nova, algo dentro de mim faz soar o alarme. "Devagar. Perigo!" Mesmo quando a simpatia é intensa, tenho cautela.
     Sabe que em minha pequena aldeia, em uma ação de represália, um oficial alemão pediu delicadamente a uma velhinha para fazer a gentileza de escolher entre os seus dois filhos o que seria  fuzilado?  Escolher,  já  imaginou?  Aquele?  Não,  este  aqui.  E  vê-lo  partir.  Não  insistamos nisso, mas creia-me, caro senhor, todas as surpresas são possíveis. Conheci um coração puro que recusava a desconfiança. Era pacifista, libertário e amava com um único amor abrangente toda a humanidade  e  os  animais.  Sim,  uma  alma  de  elite,  com  toda  a  certeza.  Pois  bem,  durante  as últimas guerras religiosas, na Europa, retirou-se para o campo. Escreveu na entrada de sua casa: "De onde quer que você venha, entre e seja bem-vindo." Quem, segundo o senhor, respondeu a este belo convite? Os milicianos, que entraram como se a casa fosse deles e o estriparam.

Albert Camus - A Queda

 (...)Em resumo: por excesso ou falta de imaginação. De vez em quando,  estes  senhores  brincam  de  faca  ou  de  revólver,  mas  não  acredite  que  se  empenhem muito. O papel o exige - nada mais – e eles morrem de medo ao disparar os últimos cartuchos. Dito isto, acho que são mais morais do que os outros, os que matam em família, pelo desgaste. Nunca  observou,  caro  senhor,  que  nossa  sociedade  se  organizou  para  este  tipo  de  liquidação? Naturalmente, já deve ter ouvido falar dos minúsculos peixes dos rios brasileiros que se atiram
aos  milhares  sobre  o  nadador  imprudente,  e  limpam-no,  em  alguns  instantes,  com  pequenas mordidas rápidas, deixando apenas um esqueleto imaculado. Pois bem, é esta a organização deles. "Quer ter uma vida limpa? Como todo mundo?" É claro que a resposta é sim. Como dizer não? "Está bem. Pois vamos limpá-lo. Pegue aí um emprego, uma família, férias organizadas." E os pequenos dentes cravam-se na carne até os ossos. Mas estou sendo injusto. Não se deve dizer que a organização é deles. Ela é nossa. Afinal de contas, é o caso de saber quem vai limpar o outro.

Albert Camus - A Queda

     Imagine o homem de *Cro-Magnon hospedado na Torre de Babel! No mínimo, sofreria uma sensação de desterro. Mas não, este não sente o exílio, segue seu caminho, nada o atrapalha. Uma das raras frases que ouvi de sua boca proclamava que era "pegar ou largar". Pegar ou largar o quê? Sem dúvida, ele próprio, nosso amigo. Vou fazer-lhe uma confidência: sinto-me atraído por essas criaturas graníticas. Quando pensamos muito sobre o homem, por trabalho ou vocação, às vezes sentimos nostalgia dos primatas. Estes não tinham segundas intenções.
     Nosso anfitrião, na realidade, tem algumas idéias, embora as alimente de modo obscuro. Por não compreender o que se diz em sua presença, assumiu um caráter desconfiado. Daí esse ar de sombria gravidade, como se suspeitasse, no mínimo, que há algo de errado entre os homens. Esse estado de espírito torna mais difíceis as discussões que não dizem respeito a seu trabalho. Veja, por exemplo, acima de sua cabeça, na parede do fundo, aquele retângulo vazio que marca o lugar de um quadro retirado. Com efeito, lá havia um quadro particularmente interessante, uma verdadeira obra-prima. Pois bem, eu estava presente quando o mestre-de-cerimônias o recebeu e quando ele o cedeu. Nas duas ocasiões, teve a mesma desconfiança, depois de passar algumas semanas refletindo. Quanto a isso, é preciso reconhecer - a sociedade arranhou-lhe um pouco a franca simplicidade de temperamento.



*Cro-Magnon é o nome que se dá aos restos mais antigos conhecidos na Europa de Homo sapiens, a espécie à qual pertencem todos os humanos modernos.

Albert Camus - A queda

Tem toda razão, o mutismo dele é ensurdecedor. É o silêncio das florestas primitivas, tão pesado que sufoca. Às vezes, eu me surpreendo com o obstinado desdém que o nosso taciturno amigo  demonstra  pelas  línguas  civilizadas.