quarta-feira, 27 de abril de 2011

Albert Camus - A Queda

    Quando  a  mim,  moro  no  bairro  judeu,  ou  no  que  era  assim chamado até o momento em que nossos irmãos hitlerianos abriram espaço. Que limpeza! Setenta e cinco mil judeus deportados ou assassinados — é a limpeza pelo vácuo. Admiro esta aplicação, esta paciência metódica! Quando não se tem caráter, é preciso mesmo valer-se de um método. 
Nesse caso, ele fez milagres, sem dúvida alguma, e eu moro no local em que foi cometido um dos maiores  crimes  da  história. Talvez  seja  isso  que  me  ajude  a  compreender  o  gorila  e  sua desconfiança. Desse modo, posso lutar contra essa tendência de temperamento que me inclina de modo irresistível à simpatia. Quando vejo uma cara nova, algo dentro de mim faz soar o alarme. "Devagar. Perigo!" Mesmo quando a simpatia é intensa, tenho cautela.
     Sabe que em minha pequena aldeia, em uma ação de represália, um oficial alemão pediu delicadamente a uma velhinha para fazer a gentileza de escolher entre os seus dois filhos o que seria  fuzilado?  Escolher,  já  imaginou?  Aquele?  Não,  este  aqui.  E  vê-lo  partir.  Não  insistamos nisso, mas creia-me, caro senhor, todas as surpresas são possíveis. Conheci um coração puro que recusava a desconfiança. Era pacifista, libertário e amava com um único amor abrangente toda a humanidade  e  os  animais.  Sim,  uma  alma  de  elite,  com  toda  a  certeza.  Pois  bem,  durante  as últimas guerras religiosas, na Europa, retirou-se para o campo. Escreveu na entrada de sua casa: "De onde quer que você venha, entre e seja bem-vindo." Quem, segundo o senhor, respondeu a este belo convite? Os milicianos, que entraram como se a casa fosse deles e o estriparam.